Shinzen Kekkon (Casamento)
A expressão shinzen kekkon literalmente significa “rito matrimonial na presença dos kami” . Na ampla noção do termo poderiam ser incluídos os vários ritos pré-nupciais que possam ser realizados diante dos kami. Comumente se refere aos ritos que são praticadas pelos kannushi (sacerdote) nos templos xintoístas ou em salão preparado para isso.
Segundo estudiosos antigos, os ritos matrimoniais estão associados, como uma forma de culto, à relação entre Izanagi e Izanami. A forma contemporânea de celebração tem início na Era Meiji, com certa influência dos ritos matrimoniais provenientes do cristianismo. No início, essa celebração não encontrou muita aceitação. Foi somente com o casamento do príncipe herdeiro Yoshihito, em 1900, que mais tarde se tornou o Imperador Taishô, que a forma do shinzen kekkon foi sendo difundida.
A cerimônia do shinzen kekkon é relativamente simples e breve – normalmente leva em torno de 30 minutos e envolve os noivos e os familiares próximos. No santuário xintoísta, instala-se um altar matrimonial, que contém alguns alimentos cerimoniais como: sal, arroz, saquê, frutas, legumes e as alianças. O kannushi (sacerdote) fica à direita do altar e os noivos permanecem no centro do ambiente.
No início do rito, kannushi realiza a purificação do templo e chama a atenção dos kami. O primeiro rito que se faz é o do san-san-ku-do (Literalmente 3-3-9-vezes), no qual o noivo e a noiva altenam-se em beber o saquê que lhes é oferecido pelo oficiante. Por três vezes eles o fazem, e a cada vez, em três goles sucessivos. O xintoísmo considera determinados números auspiciosos e o três é um delesl. Bebe-se o saquê, ainda que não seja uma bebida exatamente saborosa, justamente para significar que a vida matrimonial é composta de tempos favoráveis e de outros mais difíceis.
Segue-se a esse rito de leitura dos votos de casamento por parte do noivo, enquanto a noiva escuta. Era costume que a nakodo (casamenteira) agradecesse os votos. Essa função era exercida por uma pessoa da comunidade que “arranjava” os casamentos ente os jovens. Hoje em dia, praticamente caiu em desuso. Em seguida é feita a troca de alianças. Ao final, são feitas as preces pelo novo casal. Nessas orações são invocados Izanagi e Izanami.
O traje utilizado pelas noivas chama-se shiromuku e é um tipo de quimono. Usam-se dois tipos de chapéu: o wataboshi (durante os ritos religiosos) e o tsunokakushi (durante a recepção do casamento). A cor do traje é branca ( considerado como símbolo de pureza pelos japoneses). Outro detalhe interessante é que a noiva carrega, dentro do quimono, à altura do coração, um pequeno punhal chamado de futokoro-gatana (resquício de tradição das mulheres samurais).
Fonte: Xintoísmo – Robert Rautmann – Ed. Intersaberes
Anzan Kigan (Boa gravidez)
Anzan kigan significa ” oração pela segurança do bebê ” . As mães grávidas são convidadas a visitar um santuário xintoísta no primeiro Dia do Cachorro (existem dois ou três dias por mês que são designados como Dia do Cachorro. O cachorro é escolhido pela facilidade com que as fêmeas pare (Lewis, 2018), logo depois que entrarem na 20ª semana de gestação. No santuário (e um dos mais conhecidos para isso é o Santuário de Suitengu, em Tóquio), o casal faz as orações e recebe uma “faixa de gravidez” abençoada para ser usada no período da gestação. No Santuário Suitengu há uma estátua de uma cachorra com filhotes e é costume da mulher gestante tocar essa escultura para ser agraciada com uma boa gravidez.
Fonte: Xintoísmo – Robert Rautmann – Ed. Intersaberes
Hatsu Miyamairi (Batizado)
O momento em que a criança recém-nascida é apresentada pela primeira vez ao templo é chamado de hatsu miyamairi ou ainda omiyamairi (visita ao templo). Trata-se de uma “apresentação ” da criança ao kami local (Encyclopedia of Shinto, 2020).
Segundo esse costume, o menino é apresentado no trigésimo dia de vida e a menina, no trigésimo terceiro dia. O costume antigo ainda exigia que fosse a avó a pessoa responsável por apresentar a criança, pois a mãe estaria em uma situação de impureza ritual.
Com essa visita, a família deseja “apresentar” a nova integrante da família à divindade local, que no caso de São Paulo é a Deusa do Sol Amateratsu. O próprio ministro supremo que realiza a cerimônia apresenta a criança, dizendo o nome dela, dos pais, o endereço e a data de nascimento. A cerimônia é curta ( de 10 a 15 minutos) e tem por objetivo agradecer ao kami local pelo nascimento e pedir saúde e felicidade para a criança.
Próximo do altar o kanushi (ministro supremo) entoa cânticos japoneses e balança o tamagushi (ramos de folhas de cânhamo), para direita e a esquerda sobre a criança, como ritual de purificação. O ministro supremo inscreve, com um pedaço de carvão, sobre a testa do menino, o caractere japonês referente a “grande” (大) e, sobre a testa da menina, o caractere referente a “pequeno” ( 小 ) – eventualmente, a marcação para as meninas é feita em vermelho.
Ao final da cerimônia, saquê é distribuído em copos de madeira para os participantes e pequenos presentes são oferecidos às crianças.
Fonte: Xintoísmo – Robert Rautmann – Ed. Intersaberes
Shitigosan 七五三(7, 5 ,3 anos)
Para entender o Shiitigosan, esse importante rito do xintoísmo convém desmenbrar o termo: shiti ( que significa ” sete” ), go (“cinco”) e san (“três”). Ele designa determinadas idades das crianças japonesas que são celebradas pelas famílias (Encyclopedia of Shinto, 2020).
No dia 15 de novembro , as famílias japonesas vão até os templos com os filhos para agradecer aos kami pela vida das crianças e celebrar o crescimento destas. A celebração é dirigida aos pais cujos filhos têm as seguintes idades, singularmente desta forma: meninos ou meninas com 3 anos, meninos com 5 anos e meninas de 7 anos.
Além di Hitigosan, o calendário japonês prevê mais dois dias para a celebração com as crianças: 3 março , Hina Matsuri (Dia das Meninas ou Festival das Bonecas) ; 5 maio , o Kodomo no Hi (Dia dos Meninos).
O rito do Hitigosan tem em vista, além dos agradecimentos e pedidos em relação às crianças, a prática de suplicar o afastamento de maus espíritos (ainda que essa intenção ocorra em muitos outros momentos das celebrações xintoístas).
A história dessa celebração remonta ao Período Heian (794-1185), quando as famílias nobres recorriam às preces em favor dos filhos, pedindo saúde e felicidade, Já nesse período se realizavam três rituais distintos: kamioki, hakamagi e obitoshi.
No ritual kamioki, segundo os costumes da época, as crianças até a idade de 3 anos tinham os cabelos raspados. Somente a partir dessa idade poderiam deixá-lo crescer. Esse costume foi abandonado a partir da Era Meiji (1868-1912). Outras tradições permanecem, como o uso por meninos e meninas de um adorno na cabeça e o uso, pea primeira vez, de um quimono pelas meninas.
No rito hakamagi, o menino é apresentado usando, pela primeira vez, o hakama, peça que deve ser vestida sobre o quimono.
Na celebração obitoki, as meninas poderiam trocar as faixas comuns pelo obi.
Após a Era Meiji, as celebrações começaram se tornar comuns, também, entre as classes mais populares, especialmente na região Kanto. Hoje em dia, essas celebrações envolvem toda a população e não se restringuem ao xintoísmo.
Explica-se que a escolha das idades deve-se ao apelo supersticioso que designa os números ímpares como auspiciosos. Outra explicação aponta que, como no passado os índices de mortalidade infantil eram muito elevados, procurou-se uma solução para a questão no àmbito da crença xintoísta, sendo solicitado, portanto aos kami, que estes dessem saúde às crianças (Frédéric, 2008).
Atualmente, alguns costumes antigos ainda se mantêm – como o uso dos quimonos, do obi (para as meninas) e do hakama (para os meninos).
Outro costume interessante que ocorre no Shitigosan é a entrega do shitose ame, que é conhecida como “bala dos mil anos” ou “bala da longevidade”. É uma bala longa e fina, com as cores vermelha e branca. Ela vem enrolada em um papelo de arroz comestível. As embalagens do shitose ame são decoradas com tartarugas e garças, símbolos da longevidade no Japão. Ao entregarem os doces às crianças, os pais desejam que a vida delas seja longa e próspera. A origem dessa bala está no bairro de Asakusa, em Tóquio.
Fonte: Xintoísmo – Robert Rautmann – Ed. Intersaberes
Yakuharai (Exorcismo das idades de azar).
A tradição do yakudoshi é antiga. Remonta ao século VIII, na China, e está relacionada ao onmyodo: técnica que consiste em determinar a sorte ou o azar das pessoas com base na leitura dos astros, em número de anos e na leitura da sorte pela queima de couraça de tartaruga ou de palitos de bambu. São consideradas idades de azar para os homens de 25, 42 e 61 anos. Para as mulheres, o problema está nos 19, 33 e 37 anos. Todos também devem tomar cuidado nos anos anteriores (maeyaku) e posteriores (atoyaku) às idades críticas. As mais preocupantes (taiyaku) são os 42 anos para os homens e os 33 para as mulheres.
Dentre os nobres, a tradição foi difundida pelo especialista Abeno Seimei. Em obras literárias como Os contos de Genji, há descrições de exorcismo dessas idades. Os populares aderiram à tradição a partir do século XVII, na Era Edo. As idades de azar são uma espécie de advertência por se tratarem de fases marcantes na vida, as quais exigem cuidados tanto com a saúde quanto com acontecimentos ruins que envolvem o físico e o emocional, decorrentes de eventos como o casamento, o parto, a educação dos filhos, a construção de casas e outros. Superstição ou não, as mulheres em idades de azar apresentam o dobro do índice de divórcios comparadas às demais. Da mesma forma, registram maior incidência de câncer de mama ou de útero. Fato similar acontece com alguns homens em idades de azar, os quais apresentam maior incidência de câncer de cólon ou de faringe.
A partir de 1950, as idades começaram a ser contadas considerando-se o nascimento como zero ano e acrescentando-se 1 ano a cada aniversário. Antigamente, era utilizado o sistema de kazoedoshi, pelo qual, no momento do nascimento, a pessoa já contava com um ano e, no ano seguinte, já se considerava com 2 anos de idade. Por isso, o kazoedoshi ainda é utilizado para as idades críticas.
Fonte: Xintoísmo – Robert Rautmann – Ed. Intersaberes
Imagem: https://www.nippo.com.br/culturatradicional/n269.php
Algumas idades das pessoas têm um significado especial no xintoísmo.
Kanreki – 61 anos. Coincide com um ciclo completo do horóscopo chinês. Celebra-se o início de um novo ciclo de vida, avaliando-se o sentido da própria vida.
Koki – 70 anos. É uma celebração baseada em um poema do poeta chinês Tu Fu , que enunciava a dificuldade de se chegar a essa idade. Ainda que se perceba um declínio das forças físicas e intelectuais, é o momento de se concentrar no essencial da vida.
Kiju – 77 anos. O nome é formado pelos termos ju, que significa “longevidade” e ki, cujo caractere kanji é utilizado para designar sete-dez-sete ou setenta e sete, significado de “felicidade”
Beiju – 88 anos. Bei utiliza o caractere de arroz, o mesmo designado para oito-dez-oito.
Fonte: Xintoísmo – Robert Rautmann – Ed. Intersaberes
Imagem: https://coisasdojapao.com/2017/04/aniversarios-importantes-na-vida-de-um-japones-cdj/